Disputa no Cidadania expõe racha histórico e pode redefinir rumo ideológico do partido

Disputa judicial pelo comando do Cidadania gera racha interno. Roberto Freire tenta federação com Republicanos, enquanto diretório de Minas Gerais mantém autonomia. Entenda o cenário.

Fev 11, 2026 - 08:52
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Disputa no Cidadania expõe racha histórico e pode redefinir rumo ideológico do partido
Mídia/Reprodução: O Globo

Uma batalha judicial pelo comando do Cidadania colocou a legenda no centro de uma crise interna que ameaça redefinir seu futuro político — e até sua identidade histórica. Após retomar, por decisão liminar, a presidência nacional do partido, o ex-deputado federal Roberto Freire articula uma federação com o Republicanos, legenda ligada ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. O movimento contraria a maioria do diretório nacional, que defendia aliança com o PSB.

Dos 101 membros do diretório, 69 trabalhavam pela federação com os socialistas. A guinada pretendida por Freire é vista por dirigentes como uma mudança de eixo político, afastando o partido do campo lulista e aproximando-o de setores associados ao bolsonarismo.

Freire esteve licenciado da presidência entre 2023 e 2025, período em que Comte Bittencourt foi eleito para comandar a legenda. Uma falha técnica na ata cartorial que formalizou a saída — descrita como irrevogável — abriu brecha para questionamentos judiciais. Provocado pelo deputado federal Alex Manente (Cidadania-SP), tesoureiro do partido e líder da bancada, Freire acionou a Justiça e reassumiu o posto de forma liminar. O mérito da ação ainda não foi julgado.

Aliado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), Manente contou com a atuação do advogado Rodrigo Mudrovitsch no processo. Desde que voltou ao comando, Freire tem conseguido, na prática, inviabilizar a federação com o PSB, o que gerou forte reação de quadros históricos da legenda.

Em reunião realizada nesta segunda-feira por determinação judicial, o clima foi de tensão. Segundo relatos, Freire teria cassado a palavra de Luzia Ferreira, vice-presidente nacional, que defendia a realização de nova eleição do diretório antes do Congresso Nacional previsto para março — quando delegados deverão escolher o novo presidente.

“Percebemos membros históricos do Cidadania em profunda decepção com Roberto Freire. Ele perdeu a liderança sobre delegados e filiados, mas quer se sustentar na presidência na base do autoritarismo. É um poder sem sentido que só prejudica o partido em momento eleitoral”, afirmou João Marcelo, presidente estadual do Cidadania em Minas Gerais.

A proposta de federação com o Republicanos é vista por parte da militância como simbólica ruptura com a trajetória iniciada em 1922, com a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A legenda tornou-se PPS em 1992 e, em 2019, passou a se chamar Cidadania. Por três décadas, Freire esteve à frente do partido.

Apesar do embate nacional, em Minas Gerais o diretório estadual afirma ter segurança jurídica e autonomia. Segundo João Marcelo, o congresso estadual realizado em dezembro e devidamente registrado na Justiça Eleitoral garante mandato de quatro anos ao atual diretório. “Temos convicção de que temos força e votos para vencer o congresso nacional no voto”, disse.

O Cidadania mineiro, inclusive, avalia lançar candidatura própria ao governo do estado. Nesta terça-feira, dirigentes formalizaram convite ao ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares para se filiar à legenda. Ainda vinculado ao Ministério Público, ele afirmou que a legislação impede atividade político-partidária no momento, mas não descartou disputar as eleições de outubro, após diálogo com o senador Rodrigo Pacheco (PSD).

Enquanto o cenário partidário se reorganiza, outros movimentos políticos marcam o tabuleiro mineiro e nacional. A deputada estadual Lohanna (PV) não foi formalmente convidada para a inauguração do Hospital Regional de Divinópolis, embora seja autora da lei que autorizou a cessão da unidade à União, permitindo sua transformação em hospital universitário da UFSJ, com atendimento 100% pelo SUS.

Já em Belo Horizonte, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, afirmou que o presidente Lula deverá viajar aos Estados Unidos em março para reunião com Donald Trump. Na pauta, a tentativa de reduzir tarifas que ainda incidem sobre produtos brasileiros, como o café solúvel. “Hoje, 22% das exportações brasileiras para os EUA estão sujeitas a tarifas. Queremos reduzir esses índices, pois as exportações geram empregos e fortalecem a economia”, disse.

Questionado sobre eventual candidatura ao governo de São Paulo, Alckmin desconversou. “Tem dois ansiosos na vida: políticos e jornalistas”, afirmou, acrescentando que as definições eleitorais dependem das lideranças locais. Entre nomes do campo governista paulista, citou Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Alexandre Padilha.

Em meio a articulações, embates e movimentos estratégicos, o Cidadania vive talvez o momento mais decisivo desde sua refundação — com reflexos que podem ultrapassar fronteiras partidárias e influenciar o desenho das alianças para as próximas eleições.

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