Estudo alerta: estratégia promissora contra gordura no fígado pode aumentar risco de câncer hepático

Novo estudo da Universidade de Adelaide revela que terapias contra gordura no fígado baseadas em inibidores da caspase-2 podem quadruplicar o risco de câncer hepático.

Jan 15, 2026 - 14:23
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Estudo alerta: estratégia promissora contra gordura no fígado pode aumentar risco de câncer hepático
Pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, descobriram que medicamentos que inibem a enzima caspase-2 podem elevar significativamente o risco de desenvolvimento de tumores malignos no órgão. Mídia: Getty Images

O que por anos foi considerado uma estratégia terapêutica promissora para reduzir os danos da gordura no fígado pode, na verdade, representar um risco à saúde do órgão. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Adelaide, na Austrália, aponta que medicamentos da classe dos inibidores da caspase-2 — antes estudados como aliados no tratamento da doença hepática gordurosa — podem aumentar significativamente o risco de câncer de fígado.

A pesquisa, publicada na edição de janeiro da revista Science Advances, revela que o bloqueio da enzima caspase-2 provoca efeitos nocivos ao longo do envelhecimento. Em vez de proteger o fígado, a inibição leva ao acúmulo de danos celulares, inflamação crônica, fibrose e maior probabilidade de desenvolvimento de carcinoma hepatocelular, o tipo mais comum de câncer hepático.

Os cientistas utilizaram modelos de ratos geneticamente modificados para testar a hipótese. Nos animais sem a enzima ou com sua função inativa, as células do fígado apresentaram crescimento anormal, além de níveis elevados de danos genéticos e celulares. Com o passar do tempo, essas alterações desencadearam falhas no controle do ciclo celular e abriram caminho para doenças mais graves.

Segundo o estudo, ratos mais velhos sem caspase-2 chegaram a apresentar uma incidência de câncer de fígado até quatro vezes maior em comparação aos animais normais. “Ao longo do tempo, esses ratos desenvolveram inflamação hepática crônica e características semelhantes à hepatite, incluindo cicatrizes, danos oxidativos e um tipo de morte celular associada à inflamação. À medida que envelheciam, o risco de câncer aumentava consideravelmente”, descrevem os autores.

Os resultados desafiam diretamente o crescente interesse em terapias baseadas na inibição da caspase-2. De acordo com os pesquisadores, a enzima desempenha um papel essencial na eliminação de células hepáticas danificadas ou anormais ao longo da vida. Sem esse mecanismo de proteção, essas células se acumulam, criando um ambiente propício ao surgimento do câncer.

A bióloga Loretta Dorstyn, principal autora do estudo, destaca que os efeitos iniciais observados em células jovens não se mantêm a longo prazo. “Embora o bloqueio da caspase-2 possa ajudar o fígado a lidar com o estresse causado pela gordura, nosso estudo mostra que, sem essa enzima, o órgão perde a capacidade de manter a saúde celular, o que pode ser prejudicial”, afirmou em comunicado.

Para a pesquisadora, a descoberta reforça a necessidade de cautela na adoção de novas abordagens clínicas. “A inibição da caspase-2 pode parecer protetora a curto prazo, mas, a longo prazo, seus efeitos são claramente negativos”, conclui. O estudo acende um alerta importante para a revisão de terapias em desenvolvimento e reforça que combater a gordura no fígado nem sempre significa proteger o órgão contra o câncer.

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