Com Leandro Hassum, O Rei da Feira mistura humor, mediunidade e mistério policial
Longa brasileiro aposta em carisma popular e crítica social ao contar história de um policial vidente que investiga um assassinato em uma feira de rua
Estreia nesta quinta-feira (data fictícia a ser ajustada), nos cinemas, o filme O Rei da Feira, estrelado por Leandro Hassum. Apostando na fórmula dos filmes de mistério em que todos os personagens são suspeitos de um assassinato — como Entre Facas e Segredos e a trilogia de Hercule Poirot —, o longa-metragem nacional se destaca ao equilibrar o suspense com um tom cômico bem brasileiro e uma pitada de sobrenatural.
Na trama, Hassum interpreta Monarca, um policial com dons mediúnicos que desde a infância é capaz de enxergar e conversar com os mortos. O personagem nunca lidou bem com essa "maldição familiar", mas é forçado a encarar seus poderes quando se vê envolvido na investigação da morte de Bode (Pedro Wagner), um feirante problemático que volta do além como espírito e exige a resolução do crime que tirou sua vida.
A dinâmica entre os dois protagonistas é o coração do filme. Inicialmente, Bode é retratado como uma figura desprezível — alcoólatra, mulherengo e preguiçoso —, cuja morte, aparentemente, não causa luto nem surpresa. Contudo, ao longo da narrativa, o personagem passa por um processo de humanização, e o espectador é convidado a repensar seus julgamentos. Ao mesmo tempo, Monarca se transforma ao finalmente assumir sua mediunidade e lidar com questões familiares mal resolvidas, representadas pela presença constante do espírito de sua mãe.
Apesar do potencial dramático, o roteiro opta por seguir um caminho mais leve e bem-humorado, característica marcante dos papéis de Hassum. A atuação do comediante mantém a comicidade habitual, mas por vezes impede um mergulho mais profundo na dor e nos conflitos do personagem, que reage aos eventos mais como um observador do que como alguém verdadeiramente transformado.
A parte investigativa do filme funciona como pano de fundo e não chega a sustentar o mistério por completo. Algumas perguntas ficam sem resposta, como a revelação — jamais explicada — de que Bode seria o verdadeiro pai do filho da dona do bar. O enredo, portanto, caminha mais pelo viés emocional e simbólico do que pela lógica do suspense tradicional.
Com direção de Felipe Joffily (Muita Calma Nessa Hora), O Rei da Feira constrói um universo visual vibrante, que reflete a diversidade e a energia de uma feira livre brasileira. O cenário funciona como um microcosmo social, onde tipos populares ganham destaque e contribuem para a crítica social presente na obra. O elenco conta ainda com nomes como Everaldo Pontes e Yuri Yamamoto, com destaque para o trabalho de Pedro Wagner, que imprime carisma e humanidade a um personagem inicialmente antipático.
No fim, O Rei da Feira é menos sobre descobrir quem matou e mais sobre o que fazer com a chance de redescobrir a vida — ou mesmo a morte. Uma comédia de tons espirituais, que aposta no afeto, na redenção e no humor para lidar com temas complexos como o luto, a exclusão e a segunda chance.
Fonte: O Tempo
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