O registro de mais um surto do vírus Nipah na Índia e a elevada taxa de letalidade da doença provocaram apreensão nas redes sociais, com questionamentos sobre a possibilidade de o Brasil enfrentar uma nova epidemia às vésperas do Carnaval. Especialistas, no entanto, afirmam que, diante do cenário atual, não há motivo para alarme no país.
O Nipah é capaz de provocar infecções respiratórias agudas e encefalite inflamação do cérebro e pode ser transmitido tanto entre humanos quanto por animais, como morcegos e porcos. Apesar disso, pesquisadores destacam que o Brasil não abriga o principal hospedeiro do vírus: morcegos frugívoros do gênero Pteropus, conhecidos como raposa-voadora, comuns na Ásia e na África.
Para o professor Paulo Eduardo Brandão, do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, essa ausência torna o risco de circulação da doença em território brasileiro muito baixo.
Na terça-feira (10), o Ministério da Saúde divulgou nota oficial negando a confirmação de casos da doença no Brasil. A pasta informou que o país mantém protocolos permanentes de vigilância para agentes altamente patogênicos e reforçou que o risco de uma pandemia causada pelo vírus segue sendo considerado baixo. Segundo o ministério, não há evidências de disseminação internacional nem ameaça à população brasileira.
A avaliação é compartilhada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera o surto recente na Índia praticamente encerrado.
Alta letalidade e ausência de vacina
Classificado pela OMS como vírus prioritário devido ao seu potencial de desencadear epidemias, o Nipah não possui vacina nem tratamento específico. A taxa de mortalidade pode chegar a 70%.
A infectologista Rosana Richtmann, do Grupo Santa Joana, explica que o vírus apresenta elevada agressividade ao sistema nervoso central. Os sintomas iniciais costumam se assemelhar aos de outras viroses, como febre, dor de cabeça e dores musculares. Em poucos dias, porém, o quadro pode evoluir para alterações no nível de consciência, complicações neurológicas e até morte.
Segundo a médica, a maior preocupação permanece restrita à Índia e a países vizinhos que possuem o principal reservatório do vírus, um tipo específico de morcego.
Como ocorre a transmissão
De acordo com a OMS, o Nipah é uma zoonose doença transmitida de animais para humanos. A infecção pode ocorrer a partir do contato com porcos e morcegos frugívoros, além da ingestão de alimentos contaminados. Também há possibilidade de transmissão entre pessoas, especialmente em ambientes hospitalares, afetando com maior frequência profissionais de saúde.
Uma vez no organismo, o vírus compromete os sistemas respiratório e nervoso central.
Principais sintomas
Nem todos os infectados apresentam manifestações clínicas. Entre os casos sintomáticos, podem ocorrer:
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Febre, dor de cabeça, dores musculares, fadiga e tontura;
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Dificuldade respiratória;
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Encefalite, com confusão mental, desorientação, sonolência e convulsões.
Em situações de progressão rápida, o paciente pode entrar em coma e morrer. Sobreviventes de quadros graves podem apresentar sequelas neurológicas duradouras.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico pode ser feito com base na avaliação clínica durante as fases aguda e de recuperação, além de exames laboratoriais. Entre os principais testes estão o RT-PCR em fluidos corporais e a detecção de anticorpos por ELISA. Também podem ser utilizados PCR convencional e isolamento viral em cultura de células.
Como não existe medicamento específico para combater o vírus, o tratamento é exclusivamente de suporte, com hidratação e controle da pressão arterial.
Histórico de surtos
O Nipah foi identificado pela primeira vez em 1999, durante um surto entre criadores de suínos na Malásia. Desde então, o país não voltou a registrar novos episódios.
Em 2001, o vírus foi detectado em Bangladesh, onde surtos quase anuais vêm sendo relatados. Na Índia, o primeiro e mais grave surto ocorreu em 2018, na cidade de Calecute, quando 17 dos 18 casos confirmados evoluíram para óbito. Em 2019, houve um caso no distrito de Ernakulam, com recuperação do paciente. Já em 2021, um menino de 12 anos morreu após ser infectado na vila de Chathamangalam.
Especialistas apontam que a perda de habitat natural tem aproximado animais silvestres das populações humanas, favorecendo a transmissão do vírus. A OMS alerta ainda que outras regiões podem estar sob risco, uma vez que evidências do Nipah foram encontradas em morcegos do gênero Pteropus e em outras espécies em países como Camboja, Gana, Indonésia, Madagascar, Filipinas e Tailândia.