A movimentação política em Minas Gerais ganhou novos contornos nesta semana, com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) assumindo, de forma mais explícita, seu alinhamento na disputa pela sucessão estadual. Até então atuando nos bastidores para aproximar seu partido do projeto liderado pelo governador Mateus Simões (PSD), o parlamentar agora dá sinais públicos de engajamento direto — e estratégico — na construção dessa candidatura.
O gesto mais emblemático ocorreu na quarta-feira (22), quando Nikolas promoveu um almoço com o tenente-coronel Domingos Sávio Mendonça, um dos formuladores da PEC 40/2024, proposta de iniciativa popular que prevê a fixação de janeiro como data-base para a revisão anual dos salários das forças de segurança. A articulação indica uma tentativa clara de aproximação com uma das categorias mais sensíveis do eleitorado mineiro.
A escolha dos interlocutores, no entanto, chamou atenção. Parlamentares estaduais ligados às forças de segurança e ao campo conservador, como Sargento Rodrigues e Caporezzo — ambos do PL e apoiadores da pré-candidatura do senador Cleitinho — ficaram de fora do encontro. A exclusão acentuou tensões internas e provocou reações públicas. Caporezzo criticou a postura de Nikolas, acusando-o de favorecer um adversário político e questionando a tentativa de reposicionar Mateus Simões como alternativa viável para a segurança pública.
O pano de fundo desse movimento é um histórico delicado na relação entre o governo estadual e as forças policiais. Desde o primeiro mandato de Romeu Zema, acumulam-se queixas sobre promessas não cumpridas, especialmente no que diz respeito à recomposição salarial. Um acordo firmado em 2019 previa reajuste de 45% em três parcelas, mas apenas a primeira, de 13%, foi efetivamente paga. As demais foram vetadas, gerando desgaste e alimentando um sentimento de quebra de confiança entre os profissionais da segurança.
O próprio Mateus Simões, em entrevista recente, relembrou episódios desse período, incluindo sua participação na decisão de vetar um projeto de reajuste ampliado que acabou beneficiando todas as carreiras do Estado. Segundo ele, sua entrada no governo teve como objetivo justamente lidar com as consequências políticas dessa decisão.
Nesse contexto, a tentativa de Nikolas Ferreira de reconstruir pontes com as forças de segurança representa uma aposta de alto risco. De um lado, está seu forte capital político e alcance digital; de outro, um histórico de insatisfação que ainda reverbera entre as categorias. A estratégia parece buscar substituir a memória de frustrações por um discurso de unidade da direita em torno de um projeto comum.
Paralelamente, a própria PEC 40/2024 enfrenta obstáculos técnicos. Um parecer da consultoria da Assembleia Legislativa aponta possíveis inconstitucionalidades, especialmente por tratar de matéria cuja iniciativa é reservada ao Poder Executivo. Sem uma proposta formal encaminhada pelo governo estadual, a medida pode ter impacto limitado na prática.
Enquanto isso, outros temas também movimentam o cenário político mineiro. No campo ambiental, a Assembleia sediou debate sobre os desafios da proteção da natureza em um estado marcado pela atividade minerária, antecipando discussões que ganharão força no Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza, previsto para ocorrer em Ouro Preto e Mariana.
Já no plano nacional, a visita do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) a Belo Horizonte, nesta quinta-feira, reforça o interesse de lideranças de projeção nacional no tabuleiro político mineiro, ampliando o alcance e a complexidade das articulações em curso.
Com múltiplos atores e interesses em jogo, a sucessão em Minas começa a se desenhar como um cenário de disputas intensas, onde alianças, memórias políticas e estratégias de comunicação terão peso decisivo.