Família resiste à desapropriação em Congonhas: “O dinheiro não paga as nossas raízes”

Jul 16, 2025 - 14:23
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Família resiste à desapropriação em Congonhas: “O dinheiro não paga as nossas raízes”
Seu João e dona Geralda na humilde casa dos antepassados do idoso. Foto: Flavio Tavares / O Tempo

Em meio ao silêncio das montanhas de Congonhas, na região Central de Minas Gerais, as lembranças e as águas de uma nascente resistem, assim como a luta de uma família centenária da comunidade de Santa Quitéria, que agora vive sob ameaça de perder sua casa para o avanço da mineração.

A propriedade de 7 hectares da família de seu João Batista de Paula, 74 anos, e da esposa, dona Maria Geralda, 66, é alvo de um processo de desapropriação movido pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). O motivo é a instalação de uma pilha de rejeito filtrado de minério de ferro a poucos metros da comunidade rural, que abriga cerca de 400 pessoas.

As tentativas de acordo não avançaram. No último dia 2 de julho, a Justiça concedeu à mineradora a imissão de posse, o que significa que, legalmente, a empresa já pode assumir a propriedade. No entanto, os moradores se recusam a sair. “O meu aqui está legalizado, tá tudo na minha documentação, por isso acho que me pegaram para Cristo”, desabafa seu João, referindo-se ao fato de sua propriedade ser uma das poucas com escritura registrada.

A família afirma que o valor oferecido pela CSN durante a negociação não foi divulgado e que a proposta jamais considerou o valor afetivo, histórico e ambiental do imóvel. “Dinheiro a gente corre atrás, mas e os meus pais? Se eu perder eles nessa angústia, de que adianta o dinheiro?”, questiona, entre lágrimas, a filha do casal, Danila Fernanda de Paula, 44, ao relembrar os dias de infância ao lado da avó, fazendo biscoitos no forno de barro e nadando na piscina abastecida pela nascente da casa, uma nascente que ainda brota, mas que poderá ser soterrada por rejeitos.

O início do pesadelo

O conflito teve início em 12 de julho de 2024, quando o governador Romeu Zema (Novo) assinou o Decreto de Numeração Especial (DNE) 496, declarando como de “interesse público” uma área de 261 hectares na zona rural de Congonhas, para fins de utilidade da CSN. Desde então, a incerteza tomou conta da comunidade.

Após negociações com diversos moradores,  muitos sem escritura formal , a CSN decidiu judicializar o processo contra a família de seu João, que resistiu à venda por entender que a propriedade não pode ser precificada apenas em reais. “Eles estão tirando nossas raízes, nossa memória”, diz Danila, emocionada.

Tentativa de ocupação gera tensão

Na manhã da última terça-feira (15), representantes da CSN, acompanhados por um oficial de Justiça e seguranças, tentaram cumprir o mandado de posse. Segundo relatos, o grupo tentou instalar uma corrente no portão da casa, mas foi impedido por moradores que se organizaram em frente à propriedade.

Durante a tensão, seu João passou mal e precisou de atendimento médico de urgência. Com a situação crítica, a CSN recuou temporariamente. A família recebeu 20 dias para desocupar o local,  retirando móveis, criações e pertences de toda uma vida.

Resistência e apelo à comunidade

Dona Maria Geralda garante que a luta continua: “Não vamos ceder. Se ocuparem aqui, vão espremer os outros também. A gente está resistindo pensando na comunidade inteira. Se o povo se unir, podemos fazer uma barreira humana”.

A história da família tem mobilizado moradores e organizações da região, que acompanham com apreensão a expansão acelerada da mineração em Congonhas, especialmente em áreas rurais onde a legislação ambiental e fundiária nem sempre é respeitada com equidade.

Impacto emocional e social

A pressão psicológica tem afetado toda a família. Seu João, que mantinha uma rotina simples entre o cuidado com gado e a produção de fubá em um moinho de pedra herdado do avô, agora toma medicamentos psiquiátricos para controlar crises de ansiedade e depressão.

Para os moradores de Santa Quitéria, o caso da família de seu João representa o prenúncio de um futuro incerto, onde o progresso industrial chega acompanhado de dor, insegurança e perda de identidade.

“A gente nunca imaginou que ia ser despejado. Isso aqui é a nossa história. A nossa vida inteira”, conclui Danila, com os olhos marejados  como a nascente que ainda insiste em brotar do solo.

 Fonte: O tempo e José Vítor Camilo

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