Entre lama e silêncio: vazamentos em minas reacendem medo de barragens em comunidades de Minas Gerais

Sete anos após Brumadinho, transbordamentos em estruturas da Vale em Ouro Preto e Congonhas colocam comunidades em alerta e causam danos ambientais em Minas Gerais.

Entre lama e silêncio: vazamentos em minas reacendem medo de barragens em comunidades de Minas Gerais
Novos episódios envolvendo estruturas minerárias geraram pânico na Região Central de Minas. crédito: Edesio Ferreira/EM

Entre montanhas históricas e paisagens marcadas pela mineração, Minas Gerais segue convivendo com um passado recente de tragédias e um presente cercado de incertezas. Sete anos após o rompimento da barragem em Brumadinho, lembrado no último domingo (25/1), novos episódios envolvendo estruturas minerárias reacenderam o medo em comunidades do estado.

No mesmo dia da data simbólica, uma estrutura da Vale em Ouro Preto, na divisa com Congonhas, na Região Central de Minas, transbordou. A água atingiu a região do distrito de Pires, área da CSN Mineração, além do leito de córregos em Congonhas. Apesar de não haver registro de vítimas, o extravasamento foi suficiente para colocar moradores em alerta e reforçar a sensação de insegurança de quem vive próximo às minas e barragens.

A falta de informações claras por parte das empresas é uma das principais queixas da população. Morador do subdistrito de Mota, em Ouro Preto, Seu João (nome fictício) relata o medo constante de quem convive diariamente com essas estruturas. “A barragem, mesmo desativada há anos, não seca. Por baixo do barro, fica tudo úmido, ainda mais nessa época de chuva. A gente nunca sabe se está correndo risco ou não”, afirma. Ex-funcionário de mineradora, ele diz conhecer de perto o potencial de destruição de uma barragem e lembra que as comunidades estavam ali antes da chegada das empresas. “A gente mora logo abaixo. Se acontecer alguma coisa, somos os primeiros a ser atingidos”, desabafa.

Um dia após o vazamento, a reportagem do Estado de Minas esteve na mina da Fábrica, em Ouro Preto, para acompanhar o trajeto da água que inundou parte da região. O acesso à estrutura da Vale, no entanto, não foi autorizado. Nos arredores, a aproximação também foi dificultada pela vegetação densa, lama e áreas privadas.

No vilarejo de Mota, o mais próximo da mina, a preocupação era visível. Muitos moradores afirmaram não ter recebido explicações detalhadas sobre o ocorrido. Embora o episódio não tenha causado uma devastação semelhante à de Brumadinho, a Defesa Civil de Minas Gerais confirmou danos ambientais. Houve carreamento de sedimentos e assoreamento de cursos d’água afluentes do Rio Maranhão, o que levou à adoção de medidas emergenciais pela Vale, como monitoramento do curso d’água e ações de recuperação ambiental.

A reportagem encontrou córregos carregados de lama na região. Segundo os moradores, a água não é utilizada para consumo, mas servia para a pesca, agora inviabilizada pelo impacto ambiental. O problema se soma a outra dificuldade enfrentada pela comunidade: a construção de uma barragem sobre uma nascente que abastece as casas do vilarejo. Sem rede de saneamento, os moradores relatam que, em períodos de chuva, resíduos contaminam a água, tornando-a imprópria para consumo e deixando a população sem abastecimento.

Menos de 24 horas após o transbordamento em Ouro Preto, outro episódio aumentou a tensão. A mina de Viga, também da Vale, localizada na estrada Esmeril, em Congonhas, apresentou novo extravasamento de água. No local, equipes do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil atuavam enquanto máquinas removiam grandes volumes de terra e lama. Parte do solo cedeu, mas as autoridades não confirmaram se o problema foi causado diretamente pelo vazamento.

Congonhas já convive com o temor em torno da barragem da Casa de Pedra, uma das maiores do estado. Com chuvas intensas e vazamentos consecutivos, o medo cresce entre os moradores. A Vale afirma que não há risco iminente nas barragens e que as medidas necessárias estão sendo adotadas. Para quem vive à sombra dessas estruturas, no entanto, o receio permanece — alimentado pela memória de tragédias que Minas Gerais ainda tenta superar.