Do risco ao conforto: por que deputados evitam governos e disputam o poder nos bastidores
Entenda a mudança na lógica do poder em Minas Gerais: das estratégias de Aécio Neves em 2002 ao domínio das emendas impositivas e a corrida pelo Senado e TCE em 2026.
Na sucessão mineira de 2002, a política ainda era um jogo de apostas calculadas. À frente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves (PSDB) decidiu concorrer ao governo de Minas após garantir o apoio do então governador Itamar Franco. Impedido de disputar a reeleição pelo vice Newton Cardoso, que controlava o PMDB, Itamar deu o troco: em Minas, apoiou Aécio; na disputa presidencial, ficou com Lula, contrariando o candidato tucano José Serra. Era um tempo em que parlamentares arriscavam mandatos para alçar voos mais altos, amparados pelo auge do presidencialismo de coalizão.
Quase um quarto de século depois, o cenário mudou radicalmente. A engrenagem do presidencialismo de coalizão se mostra desgastada — não apenas pela autonomia conferida pelas emendas impositivas, mas pelo impacto das mídias digitais, que remodelaram o Parlamento. Deputados passaram a falar diretamente a nichos específicos, explorando indignações e discursos antissistêmicos, sem mediações. Para muitos, manter as bolhas inflamadas rende mais do que integrar governos e promover transformações institucionais.
O resultado é claro: deputados evitam deixar seus assentos para disputar governos estaduais. O risco de perder a eleição e ficar sem mandato pesa — e mais ainda a perda de autonomia proporcionada por um volume generoso de emendas impositivas, que se aproxima de R$ 50 bilhões dentro de um orçamento previsto de R$ 61 bilhões para 2026. Se é para correr risco, que seja para o Senado: mandato de oito anos e emendas individuais que mais do que dobram em relação à Câmara.
Não por acaso, a disputa para o Senado em 2026 se intensifica em todos os estados, sobretudo no campo bolsonarista, onde o voto orgânico favorece disputas majoritárias de turno único. Santa Catarina virou paradigma do embate, dividindo inclusive o clã Bolsonaro. Em Minas, a corrida do PL pelas duas vagas ao Senado começou com sete nomes e hoje se afunila entre o deputado federal Domingos Sávio e o deputado estadual Cristiano Caporezzo.
A lógica que prevalece é a do parlamentar como “unidade orçamentária”. Amparados pelas emendas, muitos enxergam na reeleição um caminho mais seguro do que na disputa por Executivos estaduais. Em vez de sonhar com governos, preferem intercalar a carreira entre assembleias, Câmara e Senado. Soma-se a isso a narrativa bolsonarista de que o controle do Congresso seria o verdadeiro caminho de volta ao poder — independentemente de quem vença a Presidência. Um Executivo cercado por maioria hostil pode transformar qualquer vitória em triunfo de Pirro.
Esse cálculo de poder também se reflete na corrida por vagas no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Sete deputados estaduais disputam a indicação para a segunda vaga aberta pela Assembleia Legislativa, que exige 16 assinaturas para cada candidatura. A deputada Ione Pinheiro (União) é a única mulher na disputa, em um Legislativo que jamais elegeu uma parlamentar para o cargo. A lista inclui ainda Thiago Cota (PDT), Ulysses Gomes (PT), Tito Torres (PSD), Sargento Rodrigues (PL), Wilson Batista (PSD) e Arnaldo Silva (União).
Com a regra que limita cada deputado a duas assinaturas, a largada já é tensa: juntos, os sete candidatos precisarão de 112 assinaturas, envolvendo ao menos 56 parlamentares. Em ano eleitoral, com plenário esvaziado e a janela partidária se fechando em 4 de abril, a tarefa é hercúlea. Diferentemente da eleição anterior, quando houve consenso, desta vez o acordo parece distante.
Embora duas vagas estejam abertas, muitos acreditam que apenas uma será efetivamente disputada — a outra poderia seguir o caminho de indicações passadas e ser destinada à presidência da Assembleia. Se a escolha for para o plenário, haverá segundo turno e nenhum candidato desponta com os 39 votos necessários. A imprevisibilidade, ao que tudo indica, será a regra do jogo.
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