Uma substância tóxica presente em um lote de ração animal provocou a morte de pelo menos 245 cavalos em quatro estados brasileiros, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). As mortes foram registradas em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Alagoas, com outros casos ainda em investigação na Bahia e Goiás. No Sul de Minas, ao menos 15 cavalos já morreram após consumir o alimento suspeito.
Em Guaranésia, a comoção é grande entre criadores de cavalos da raça Mangalarga Marchador. No haras de Leandro Gonçalves, oito animais morreram, mesmo após tratamento intensivo. Vídeos mostram éguas como "Etnia" desorientadas, cambaleando e batendo a cabeça nas paredes. Uma potrinha recém-nascida, "Dondoka", tenta mamar na mãe já sem vida em uma das imagens que mais sensibilizou a equipe do local.
“Nós fizemos de tudo. Buscamos ajuda, investimos em medicação e cuidados, mas vimos que mesmo assim a chance de sobrevivência era praticamente nula”, lamentou Leandro.
A principal suspeita é a contaminação da ração com sementes da planta crotalária, conhecida por conter substâncias altamente tóxicas para equídeos. A ração foi produzida pela empresa Nutrata Nutrição Animal, que confirmou ser responsável pelo lote consumido pelos animais mortos. De acordo com o Mapa, a empresa falhou no controle de qualidade das matérias-primas.
No Sul de Minas, além dos oito cavalos mortos em Guaranésia, foram registradas cinco mortes em Guaxupé, uma em Muzambinho e uma em Gonçalves. A advogada Alessandra Agarussi, que representa criadores da região, afirma que o número real pode ser ainda maior. “Muitos produtores ainda estão formalizando novas denúncias à medida que mais óbitos são registrados”, explicou.
Em nota, a Nutrata informou que lamenta os relatos e afirmou ter adotado medidas corretivas, como reforço nos controles laboratoriais, rastreabilidade das matérias-primas e reestruturação dos protocolos sanitários. No entanto, a empresa continua no centro das investigações e teve a produção e comercialização de rações temporariamente suspensas pelo Mapa.
Mesmo assim, uma decisão liminar da Justiça permitiu à empresa retomar a fabricação de rações não destinadas a cavalos, decisão essa contestada pelo Ministério da Agricultura, que recorreu alegando risco sanitário.
No haras de Guaranésia, o prejuízo chega a R$ 1,5 milhão. Além das perdas econômicas, o impacto emocional nos criadores é incalculável. “Pode ser que o prejuízo financeiro seja ressarcido um dia, mas o emocional jamais. Nossos animais são parte da família”, desabafou Leandro.
As investigações continuam, e o Ministério da Agricultura alerta para a importância de denunciar casos semelhantes e interromper imediatamente o uso da ração em questão.