Pesquisadores encontram reserva de água doce submarina que pode abastecer milhões de pessoas

Pesquisadores encontram reserva de água doce submarina que pode abastecer milhões de pessoas
Fonte: G1

Expedição internacional perfura o leito oceânico e encontra água doce entre Nova Jersey e Maine. Descoberta reacende debate sobre crise hídrica global.

Uma descoberta inédita no subsolo do oceano Atlântico pode mudar o futuro do abastecimento de água em tempos de crise climática. Uma expedição internacional encontrou uma imensa reserva de água doce sob o fundo do mar ao largo da costa nordeste dos Estados Unidos, entre os estados de Nova Jersey e Maine.

O achado aconteceu durante a Expedition 501, projeto que reuniu cientistas de mais de uma dezena de países e custou US$ 25 milhões, financiado pela Fundação Nacional de Ciências dos EUA e pelo Consórcio Europeu de Perfuração Oceânica. A missão é a primeira a perfurar sistematicamente o leito oceânico em busca de água potável.

Água doce no oceano

Durante três meses, pesquisadores trabalharam a bordo do Liftboat Robert, embarcação de perfuração adaptada de plataformas de petróleo e energia eólica. Em uma das primeiras amostras coletadas, a equipe já encontrou água com apenas 4 partes por mil de salinidade  um indício claro de que estavam diante de um aquífero de água doce, já que a média do oceano é de 35 partes por mil.

Em pontos mais distantes da costa, a salinidade caiu ainda mais, chegando a 1 parte por mil, o que equivale à água potável encontrada em aquíferos em terra firme.

“Quatro por mil foi um momento eureka”, disse o geofísico e hidrólogo Brandon Dugan, da Colorado School of Mines, co-líder da missão. “Fomos buscar água em um dos últimos lugares onde alguém esperaria encontrar água doce na Terra  e encontramos.”

Um aquífero gigante e promissor

Estudos iniciais indicam que o aquífero pode conter bilhões de metros cúbicos de água doce, o suficiente para abastecer uma cidade do tamanho de Nova York por até 800 anos.

A origem exata da água ainda está em análise. Os cientistas querem saber se ela se formou há milhares de anos, a partir do derretimento de geleiras, ou se é recarregada mais recentemente por sistemas subterrâneos conectados ao continente.

“Se for jovem, significa que foi uma gota de chuva há 100 ou 200 anos. Se for antiga, pode ser um recurso finito”, explica Dugan.

Amostras retiradas do leito oceânico estão sendo analisadas em laboratórios ao redor do mundo. Além da salinidade, serão verificados fatores como a presença de microrganismos, minerais potencialmente tóxicos e idade geológica da água.

Implicações globais

O interesse por aquíferos submarinos cresce em meio ao avanço da crise hídrica global. Segundo a ONU, a demanda por água doce pode superar a oferta em até 40% até 2030. Enquanto isso, secas, contaminação costeira por salinização e o uso intensivo de água por data centers agravam a situação em diversas regiões.

“Precisamos explorar todas as possibilidades para garantir acesso à água. Esse tipo de descoberta pode ser vital para enfrentar períodos de seca extrema”, diz o cientista Jez Everest, do British Geological Survey, no Reino Unido.

Regiões como Cidade do Cabo, na África do Sul, e Jacarta, na Indonésia, já enfrentam escassez severa e podem ter aquíferos semelhantes sob seus litorais. Há indícios de que depósitos de água doce submarina existam em todos os continentes.

Desafios para o uso

Apesar do potencial, os cientistas alertam que ainda é cedo para considerar o uso massivo dessa água. A extração exige tecnologia avançada e cuidados para evitar a contaminação com água salgada, além de riscos ecológicos, como a interrupção de fluxos subterrâneos que alimentam ecossistemas marinhos.

“Se começássemos a bombear agora, quase certamente haveria consequências imprevistas”, alerta o geofísico Rob Evans, da Woods Hole Oceanographic Institution.

Outro debate emergente é sobre quem teria direito a essa água e como ela seria distribuída. Como se trata de uma reserva em águas nacionais, seu uso envolveria regulamentações federais e ambientais ainda inexistentes.

Próximos passos

As amostras continuarão sendo analisadas nos próximos seis meses, e os cientistas da Expedition 501 voltarão a se reunir, desta vez na Alemanha, para consolidar os resultados. A expectativa é definir a viabilidade de uso do aquífero em escala regional — ou mesmo global.

Para muitos envolvidos na pesquisa, o trabalho representa um avanço histórico.

“É uma lição sobre perseverança científica. Passaram-se quase 50 anos entre a primeira descoberta e a expedição atual. Agora, finalmente, temos amostras reais em mãos”, comemora Evans.

Fonte: G1