Dia Mundial do Vinho: tradição e ciência impulsionam negócio sustentável no Sul de Minas
Conheça a Stella Valentino: a vinícola de Andradas que une tradição italiana e tecnologia de dupla poda para produzir vinhos premiados e fortalecer o enoturismo mineiro.
Entre as montanhas de Andradas, no Sul de Minas, a tradição vitivinícola ganha novos contornos a cada safra. É nesse cenário que a Vinícola Stella Valentino consolida um modelo de produção que une herança familiar, rigor técnico e visão empreendedora para fortalecer a identidade do vinho mineiro.
À frente do projeto está José Procópio Stella, agrônomo por formação e viticultor por vocação. Descendente de imigrantes italianos que chegaram à região no fim do século XIX, ele cresceu em meio às parreiras plantadas pela família. Durante décadas, o vinho produzido ali era destinado apenas ao consumo doméstico. Anos depois, decidiu retornar à propriedade com um objetivo claro: estruturar uma vinícola profissional, baseada em pesquisa, planejamento e leitura estratégica do mercado.
“Eu sabia que era possível produzir um vinho diferente aqui, desde que respeitássemos o campo e entendêssemos o consumidor”, resume o produtor.
Raízes italianas, identidade mineira
A história da família Stella no Brasil começou em 1888, com a chegada ao país vinda do Vêneto, na Itália. Inicialmente dedicados ao cultivo do café, os Stella passaram a plantar uvas e produzir vinho artesanal a partir de 1910, quando adquiriram a propriedade em Andradas.
Ao longo do século XX, a produção local enfrentou períodos de expansão e retração, acompanhando transformações econômicas e tecnológicas. Ainda assim, a cultura da uva permaneceu viva na rotina familiar — fator determinante para a retomada estruturada da atividade no início dos anos 2000.
O novo ciclo respeitou a tradição italiana, mas incorporou inovação de forma planejada, sem romper com a identidade regional.
Ciência aplicada ao terroir sul-mineiro
A virada técnica da vinícola está diretamente ligada à adoção pioneira da técnica da dupla poda em Minas Gerais. O método, desenvolvido pelo pesquisador Murilo Regina, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), foi aplicado pela primeira vez no estado na propriedade da família Stella.
A técnica inverte o ciclo produtivo da videira, permitindo a colheita no inverno — período mais seco e favorável à maturação das uvas viníferas. O resultado é maior controle sanitário, melhor concentração de açúcares e compostos fenólicos, além de redução de riscos climáticos.
A escolha das variedades passa por rigorosa avaliação agronômica. Antes de se tornar rótulo comercial, cada uva é testada quanto à adaptação ao solo e clima, vinificada em pequena escala e submetida à análise de mercado.
Na adega, o cuidado segue criterioso: temperatura de fermentação, seleção de leveduras, tempo de maturação e tipo de rolha são definidos conforme o perfil desejado. A produção anual gira entre 15 mil e 18 mil garrafas — volume que mantém o caráter familiar, com foco em consistência e qualidade.
Reconhecimento nacional
O terroir de Andradas — com altitude elevada, boa incidência solar e solos de origem vulcânica — tem contribuído para a consolidação da vitivinicultura mineira no cenário nacional.
A qualidade dos rótulos da Stella Valentino foi reconhecida em importantes concursos. O Tempranillo 2022 conquistou 93 pontos e medalha Duplo Ouro no All The Best – Grande Prova de Vinhos do Brasil 2025. Já o Tempranillo Gran Reserva 2023 recebeu medalha de Ouro no Brasil Selection 2025, edição nacional do Concours Mondial de Bruxelles.
As premiações reforçam o potencial da produção mineira quando associada à técnica e à identidade territorial. “O reconhecimento é consequência de um trabalho que começa no campo e respeita o tempo do vinho”, destaca o produtor.
Enoturismo como estratégia de mercado
Produzir vinhos finos em pequena escala envolve custos elevados. Por isso, desde o início, a estratégia da vinícola foi estruturada como modelo integrado de negócio.
O enoturismo tornou-se peça central dessa engrenagem. A propriedade oferece degustações orientadas, visitas técnicas e venda direta ao consumidor, fortalecendo o relacionamento com o público e ampliando a margem de receita. Atualmente, a vinícola recebe cerca de 600 visitantes por mês.
Para o primeiro semestre de 2026, está prevista a inauguração de um wine bar na propriedade, ampliando a experiência do visitante. Paralelamente, o produtor investe em variedades mais resistentes e produtivas, com o objetivo de reduzir custos e oferecer vinhos de entrada mais acessíveis.
“Se conseguirmos unir qualidade técnica e preço competitivo, o mercado cresce junto”, avalia.
Sustentabilidade como princípio
A Stella Valentino também adota práticas ambientais estruturadas. A vinícola possui o Selo Pró-Ambiente ESG, reconhecimento concedido a empreendimentos que seguem critérios de responsabilidade socioambiental.
Resíduos da vinificação são reaproveitados, áreas passam por reflorestamento e o manejo busca reduzir impactos ambientais, garantindo uso responsável do território.
Apoio institucional e fortalecimento regional
O projeto integra o movimento de fortalecimento das vinícolas familiares do Sul de Minas, com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae Minas). A entidade atua por meio de capacitações, incentivo à inovação e promoção de acesso a mercados estratégicos.
A participação em feiras e eventos do setor, como o Origem Vulcânica, amplia a visibilidade dos rótulos regionais e contribui para consolidar Andradas como referência emergente na produção de vinhos finos no Brasil.
No Dia Mundial do Vinho, a trajetória da Stella Valentino simboliza a convergência entre tradição, ciência e empreendedorismo — elementos que vêm redefinindo o mapa da vitivinicultura brasileira a partir do Sul de Minas.







