Bortoleto diz que novos carros estão mais ariscos e prevê mais escapadas na F1 em 2026

Gabriel Bortoleto analisa os desafios do novo regulamento da F1 em 2026: 'É como estrear em outra categoria'. Confira a visão do brasileiro sobre o motor Audi e os carros mais ariscos.

Bortoleto diz que novos carros estão mais ariscos e prevê mais escapadas na F1 em 2026
Bortoleto foi campeão da Fórmula 2 com a Invicta, em 2024 — Foto: Joe Portlock/Getty Images

As profundas mudanças no regulamento técnico da Fórmula 1 para 2026 devem impactar diretamente o desempenho das equipes no início da temporada. Para o brasileiro Gabriel Bortoleto, piloto da Audi, dificilmente alguma das 11 escuderias chegará totalmente pronta para a etapa de abertura, em Melbourne, no próximo mês.

Em entrevista exclusiva ao ge.globo durante os testes de pré-temporada no Bahrein, Bortoleto avaliou que as alterações no chassi e, principalmente, nos motores criaram um cenário de adaptação comparável à estreia em uma nova categoria.

— Melbourne é daqui a algumas semanas e a gente não vai estar com o carro 100% lá. Mas nenhuma equipe vai estar, na minha opinião. Algumas estarão mais desenvolvidas, outras um pouco menos — afirmou o piloto.

Sensação de “estrear de novo”

A carreira recente de Bortoleto foi marcada por rápidas adaptações. Em 2023, estreou na Fórmula 3 e foi campeão. Em 2024, repetiu o feito na Fórmula 2, também em seu primeiro ano. Em 2025, chegou à Fórmula 1 pela Sauber, equipe que passou a se chamar Audi a partir de 2026.

Agora, com o novo regulamento, o brasileiro afirma que a sensação é novamente de mudança de categoria.

— Eu diria que sim, é como estrear em outra categoria. Tudo é muito diferente: motor novo, carro novo. A preparação é parecida, mas você precisa colocar atenção em pontos diferentes. Ano passado a gente não era montadora de motores. Este ano estamos produzindo o nosso próprio motor, então preciso direcionar mais meu feedback também para essa área.

Carros mais ariscos e menos downforce

Uma das principais mudanças técnicas é a redução do arrasto aerodinâmico (downforce), o que torna os carros mais instáveis, especialmente nas curvas de alta velocidade. Segundo Bortoleto, isso deve aumentar o número de escapadas, principalmente nas primeiras corridas do ano.

— Devemos ver mais escapadas em 2026. É um carro em que você desliza mais, é arisco, mas ainda assim consegue corrigir um pouco quando perde a traseira ou a frente. É uma parte interessante do regulamento. Lembra um pouco a F2 nesse sentido, mas com muito mais potência.

A característica pode favorecer pilotos com facilidade de adaptação, qualidade frequentemente atribuída a Bortoleto ao longo da carreira.

Papel central no desenvolvimento

Com a Audi vivendo sua primeira temporada completa como fabricante de motor na F1, o papel do piloto no desenvolvimento se torna ainda mais relevante. Para Bortoleto, a participação ativa nas reuniões técnicas e no feedback aos engenheiros é parte fundamental do processo.

— Gosto muito de me envolver com os engenheiros e ajudar de alguma maneira. Eles sempre falam: o melhor sensor que existe é o piloto. Ele sente tudo e diz o que o carro precisa. Isso me motiva muito, estar em uma equipe que confia em mim e que tem ambição de ser campeã no futuro.

O brasileiro relembra que já viveu situações semelhantes nas categorias de base, chegando a equipes que ainda buscavam o primeiro título.

— Quando cheguei à Trident, na F3, eles não tinham sido campeões. Na Invicta, na F2, também não. Eram bons carros, mas talvez faltasse um detalhe para virar uma “nave espacial”. Sempre gostei desse lado de desenvolver, de aprender.

Desafio do gerenciamento de energia

Outro ponto crítico desta pré-temporada tem sido o gerenciamento de energia ao longo das voltas. Diferentemente de 2025, quando o uso da bateria seguia um padrão mais previsível, o novo regulamento exige maior sensibilidade na pilotagem.

— No ano passado era mais simples: você começava a volta com uma carga definida e terminava praticamente igual, independentemente do que fazia. Este ano, o jeito que você pilota influencia muito na bateria. É uma questão de programação e desenvolvimento. Como tudo é novo, aparecem muitos problemas nessa área, mas acredito que com o tempo isso será resolvido.

Apesar das conversas frequentes entre os pilotos nos bastidores, o estágio de desenvolvimento de cada equipe permanece um mistério — algo comum nesta fase do campeonato.

— A gente conversa, sim, mas ninguém fala muito. Cada carro está em um nível diferente de desenvolvimento, principalmente os motores.

A pré-temporada da Fórmula 1 segue no Bahrein até sexta-feira. A expectativa é de que as primeiras etapas do campeonato revelem um cenário de maior imprevisibilidade, com carros mais difíceis de domar e equipes ainda em processo acelerado de adaptação ao novo regulamento.