Benzedeiras se reinventam para manter vivo o legado ancestral de fé e sabedoria, podem se tornar patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais.

Set 4, 2025 - 09:35
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Benzedeiras se reinventam para manter vivo o legado ancestral de fé e sabedoria,  podem se tornar patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais.
Fonte: Google

De sessões online a rituais presenciais, prática popular continua sendo espaço de acolhimento, cura e conexão espiritual

Presente em diversas culturas e profundamente enraizado na história do Brasil, o benzimento é uma prática ancestral que atravessa gerações como um gesto de fé, cuidado e acolhimento. Em Minas Gerais, essa tradição popular, marcada pelo sincretismo religioso e pelo uso de rezas e ervas, está em transformação. Entre sessões online, perfis em redes sociais e atendimentos presenciais, benzedeiras contemporâneas buscam reinventar o ofício para manter viva uma sabedoria passada de avós para netos — ou, em alguns casos, revelada por um chamado espiritual.

A relevância social e cultural da benzeção é tamanha que tramita na Assembleia Legislativa de Minas Gerais o Projeto de Lei 2024/2024, de autoria da deputada Ione Pinheiro (União), que propõe o reconhecimento da prática como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. Desde 2014, a benzeção da Comunidade Quilombola dos Arturos, em Contagem, já é oficialmente registrada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha-MG).

Apesar do reconhecimento, muitas benzedeiras alertam: o ofício tradicional está desaparecendo. “Não está achando fácil. Está acabando”, afirma Maria de Lourdes Meneses da Silva, de 91 anos, benzedeira há mais de sete décadas e referência na região metropolitana de Belo Horizonte. Mesmo sem ter herdado a prática da família, ela afirma que recebeu o dom como missão divina. “Se a pessoa está sofrendo, minha missão é cuidar dela.”

Fé que se adapta aos tempos

Ainda que a tradição esteja ameaçada, há quem veja uma nova era surgindo. Benzedeiras mais jovens estão usando as redes sociais e ferramentas digitais para manter a prática viva. É o caso de Tatiana Sansi, 43 anos, artista plástica e neta da benzedeira Maria Eni, de 88. Com mais de 168 mil seguidores no Instagram, Tatiana compartilha vídeos de benzimentos, dicas de banhos com ervas, simpatias e rituais de proteção.

“O universo digital acaba fazendo com que a chama se mantenha acesa. Acho que está surgindo uma nova era de benzedeiras e benzimentos. É um saber que não pode morrer”, afirma. Moradora do distrito de São Sebastião das Águas Claras, em Nova Lima — conhecido como Macacos —, Tatiana diz preferir as sessões presenciais, mas também atende à distância, adaptando-se às demandas contemporâneas.

Já a psicoterapeuta Katherine Borborema, de 44 anos, que aprendeu a benzer ainda criança no colo da avó, integra o benzimento a terapias alternativas como reiki e constelação familiar. Ela atende clientes de diversas partes do Brasil por videochamada ou até por telefone. “É natural que a tradição receba novos contornos para se manter viva”, diz.

Entre os benefícios que observa em seus atendimentos, Katherine cita a sensação de acolhimento, alívio de dores físicas e espirituais, proteção contra energias negativas e fortalecimento da fé. “Muitas pessoas falam que também melhora a imunidade e o sono de adultos e crianças”, completa.

Saber ancestral em tempos modernos

Uma pesquisa do Instituto Datafolha de 2020 revelou que 40% dos brasileiros acreditam em práticas de cura espiritual como passes, rezas e benzimentos. Esse número pode ter aumentado, impulsionado pelo crescimento das terapias integrativas e da busca por espiritualidade, saúde emocional e bem-estar em tempos de incerteza.

Nesse contexto, o benzimento se mantém como uma forma de diálogo entre o sagrado e o humano. Independentemente da religião, é reconhecido como um gesto de empatia e conexão, oferecendo respostas simbólicas a dores que nem sempre têm remédio.

Como resume Tatiana Sansi: “O benzimento independe de religião. Tem benzedeira católica, umbandista... Benzimento é acolhimento. As pessoas sempre vão buscar conforto. Desde que o mundo é mundo, é assim”.

Fonte: O Tempo

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