Sem água, luz e saneamento, indígenas venezuelanos Warao lutam por dignidade em Betim
Cerca de 258 indígenas Warao vivem em condições precárias em Betim (MG). Sem planos de voltar à Venezuela, comunidade clama por território e dignidade.
Barracas improvisadas feitas de madeira e lona se espalham por um terreno sem pavimentação em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Entre tijolos empilhados, mato alto, roupas penduradas em varais improvisados e resíduos espalhados pelo chão, cerca de 258 indígenas da etnia Warao, vindos da Venezuela, tentam reconstruir a vida em meio à precariedade. No local, não há acesso regular à água potável, energia elétrica ou saneamento básico.
A ocupação teve início em agosto de 2023 e abriga atualmente 40 famílias, segundo o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Entre elas está a de Eulio Medina Warao, de 40 anos, que chegou ao Brasil em 31 de dezembro de 2020 com a esposa e quatro filhos, fugindo da repressão política e da crise humanitária em seu país de origem. “Ninguém sai do seu país porque quer”, resume. Relutante em falar sobre política, ele afirma que discutir o tema ainda desperta medo.
Mesmo após a queda do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro deste ano, os planos da comunidade não mudaram. O retorno à Venezuela não está nos horizontes. “Nossa esperança está no Brasil”, diz Eulio, embora reconheça que as condições atuais estejam longe do ideal.
A situação da comunidade foi classificada como de extrema vulnerabilidade e emergência humanitária após uma visita técnica realizada em dezembro de 2025 por representantes do MPMG, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, da Defensoria Pública e de outros órgãos. A Prefeitura de Betim, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Cruz Vermelha e o Conselho Nacional de Direitos Humanos também acompanham o caso.
A insegurança alimentar é uma das principais dificuldades enfrentadas pelos Warao. Sem empregos estáveis, muitas famílias dependem de doações de cestas básicas feitas por igrejas, organizações sociais e voluntários, além da mendicância em vias públicas. “Os programas sociais, quando acessados, são insuficientes para garantir uma subsistência digna”, afirma o promotor de Justiça Walter Freitas.
As moradias precárias agravam a situação. Pequenas e frágeis, elas não protegem da chuva nem do calor intenso. “Quando chove, tudo molha. Quando faz sol, fica insuportável”, relata Antonio Sapata Warao, de 36 anos, que vive no local após passar por outros estados brasileiros. Faltam materiais de construção, itens de higiene e fraldas para crianças, segundo os moradores.
A saúde também preocupa. A Prefeitura de Betim informa que equipes da Estratégia de Saúde da Família realizam visitas regulares desde 2024, promovendo acompanhamento médico e vacinação, com apoio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Ainda assim, o MPMG alerta para a ausência de saneamento básico regular. O município afirma que realiza coleta de lixo e negocia com a Copasa alternativas para o fornecimento de água.
A educação das crianças é outro desafio. Cerca de 64 indígenas têm até 14 anos. Algumas estão matriculadas na rede pública, mas enfrentam episódios de bullying por serem indígenas e imigrantes. Além disso, os adultos temem a perda da língua Warao e do espanhol, bem como dos costumes ancestrais. A Secretaria Municipal de Educação afirma que faz buscas ativas para garantir matrícula, mesmo sem documentação completa.
Para sobreviver, muitos homens trabalham como diaristas na construção civil e em serviços braçais. Já as mulheres enfrentam dificuldades para produzir artesanato, atividade tradicional da etnia, pela falta de materiais como o buriti. Isso compromete a renda e ameaça a preservação cultural do grupo.
A principal reivindicação da comunidade é a destinação de um território definitivo, com infraestrutura adequada. “Não queremos mudar de lona para lona. De lona, a gente fica aqui”, afirma Eulio. O terreno ocupado atualmente é alvo de uma ação de reintegração de posse que tramita na Justiça. Segundo o TJMG, uma nova vistoria em uma área pertencente ao Incra, indicada para possível doação, está marcada para o dia 28. O local deverá ser transferido à Funai antes de ser destinado às famílias.
Enquanto aguardam uma solução definitiva, os Warao seguem vivendo entre a esperança de um recomeço e a dura realidade da exclusão social. Mesmo com as mudanças políticas na Venezuela, eles afirmam que pretendem permanecer no Brasil, onde, apesar das dificuldades, encontraram alguma rede de apoio e acesso a programas sociais inexistentes em seu país de origem.
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