Venezuela vive transição sob tutela após saída de Maduro

Um mês após a ação dos EUA, Venezuela vive estabilidade tutelada. Entenda a nova lei do petróleo, a reaproximação com Washington e o futuro do chavismo.

Venezuela vive transição sob tutela após saída de Maduro
Ditador venezuelano foi capturado em operação dos EUA em 3 de janeiro. Desde então, o vice-presidente assumiu o poder e tem cedido a pressões norte-americanas. Foto: (Juan Barreto/AFP)

Um mês após o início da ofensiva militar dos Estados Unidos, a Venezuela enfrenta um novo cenário político marcado por mudanças pontuais e permanências estruturais. Na madrugada de 3 de janeiro, bombardeios ordenados pelo presidente norte-americano Donald Trump resultaram na captura de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, levados a Nova York para julgamento por tráfico de drogas. A ação deixou quase 100 mortos, entre civis e militares.

Com a queda de Maduro, o comando do país passou para a então vice-presidente Delcy Rodríguez. Ela assumiu a condução do governo em um modelo que analistas classificam como uma “estabilidade tutelada”, mantendo o chavismo no poder sob forte influência de Washington. Apesar do discurso alinhado à retórica chavista, Rodríguez iniciou uma reaproximação com os Estados Unidos e implementou medidas exigidas pela Casa Branca.

Entre as principais mudanças está a retomada das relações diplomáticas, rompidas desde 2019, e a aprovação de uma ampla reforma na legislação do petróleo. A nova lei flexibiliza regras históricas, reduz royalties, simplifica impostos e permite que empresas privadas atuem sem a participação obrigatória da estatal PDVSA, na prática desmontando o modelo estatista consolidado desde a nacionalização de 1976. A expectativa do governo Trump é atrair petroleiras norte-americanas, como a Chevron, para investir no país.

Especialistas estimam que a recuperação do setor petrolífero venezuelano exija cerca de US$ 150 bilhões. Já sob o novo arranjo, os Estados Unidos passaram a controlar parte das vendas de petróleo venezuelano no mercado internacional, sem os descontos impostos pelo embargo de 2019. A primeira operação gerou US$ 500 milhões.

No campo político, Rodríguez promoveu mudanças no alto escalão do governo e das Forças Armadas, embora nomes influentes como Diosdado Cabello e Vladimir Padrino permaneçam à frente dos ministérios do Interior e da Defesa. Paralelamente, o chavismo mantém ações simbólicas e propagandísticas, com marchas que pedem a libertação de Maduro e manifestações na mídia estatal. Shows de drones chegaram a exibir imagens do ex-presidente e de sua esposa, além de trechos de sua declaração ao tribunal de Nova York, onde se definiu como “prisioneiro de guerra”.

Rodríguez também anunciou uma anistia geral, que ainda precisa ser aprovada pelo Parlamento. O alcance da medida segue indefinido, mas gerou expectativa entre familiares de presos políticos. Segundo a ONG Foro Penal, 687 pessoas continuavam detidas por motivos políticos até esta segunda-feira (2). O fechamento do Helicoide, prisão denunciada como centro de torturas, também foi anunciado.

Apesar da redução do clima de medo imposto durante o governo Maduro, críticas ao poder ainda são feitas com cautela. Para analistas, o país vive um processo de “liberalização tática”, no qual o sistema político se ajusta sem romper totalmente com sua estrutura de controle.