Nikolas descarta governo de Minas e foca em pauta nacional: deputado cita Lula 21 vezes mais que o próprio estado
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) confirmou que buscará a reeleição em vez do Governo de Minas. Levantamento revela que o parlamentar foca discursos em pautas nacionais e oposição a Lula, mencionando pouco o estado de Minas Gerais na tribuna.
Ao descartar publicamente uma candidatura ao governo de Minas Gerais, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) colocou fim às especulações sobre seu futuro político imediato e confirmou que disputará a reeleição para a Câmara dos Deputados. O anúncio foi feito durante entrevista ao podcast Café com Ferri, na qual foi direto: “Não vou ser candidato a governador. Descartei essa possibilidade”.
A declaração abriu caminho para uma análise mais aprofundada de seu mandato. Levantamento do Núcleo de Dados do Estado de Minas traçou um raio-x da atuação de Nikolas entre fevereiro de 2023, quando assumiu o cargo, e dezembro do ano passado. A pergunta central foi clara: como atua, no dia a dia do Legislativo, o deputado mais votado do Brasil nas eleições de 2022?
Os números revelam um parlamentar extremamente ativo na tribuna da Câmara, mas com discursos voltados quase exclusivamente a pautas nacionais. Em cerca de 140 pronunciamentos realizados no período, Nikolas mencionou “Minas Gerais” ou “mineiros” apenas 11 vezes — contraste expressivo diante dos 1,47 milhão de votos recebidos no estado, a terceira maior votação da história da Casa.
Em contrapartida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em 193 citações nos discursos do deputado, tornando-se a terceira palavra mais utilizada por ele na tribuna — 21 vezes mais do que referências diretas a Minas. Termos como “esquerda”, mencionada 156 vezes, também ocupam posição de destaque, evidenciando uma estratégia discursiva fortemente marcada pela oposição ao governo federal.
A análise das palavras mais frequentes reforça esse perfil. Vocábulos ligados a políticas públicas básicas ficam em segundo plano. “Saúde” aparece apenas 26 vezes; “educação”, 15; “economia”, cinco; e “saneamento”, quatro. Já expressões como “país” (252 menções), “ministro” (144), “Bolsonaro” (117), “STF” (96) e “Moraes” (70) dominam o discurso, colocando temas institucionais, ideológicos e de embate político no centro da atuação parlamentar.
Procurado, Nikolas afirmou, por meio de nota, que seus pronunciamentos refletem a dinâmica do Legislativo e os temas em votação no Congresso. Segundo ele, o uso da tribuna tem como foco denunciar abusos de poder, defender a liberdade de expressão e combater a corrupção — pautas que, afirma, impactam diretamente todos os brasileiros, inclusive os mineiros. O deputado também destacou que sua atuação em Minas vai além dos discursos e citou a destinação de mais de R$ 81,6 milhões em emendas parlamentares para o estado, com recursos distribuídos entre saúde, segurança pública, assistência social, educação, esporte e outras áreas.
Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que o distanciamento discursivo de Minas está alinhado a uma estratégia política mais ampla. Para o cientista político Paulo Ramirez, professor da ESPM, Nikolas atua como uma espécie de “sentinela” do bolsonarismo, com forte apelo retórico e foco em pautas que geram engajamento nas redes sociais — característica que ele define como “neopopulismo”.
Na mesma linha, o professor da UFMG Camilo Aggio aponta que Nikolas representa um novo tipo de político “desterritorializado”, cuja base eleitoral não se constrói a partir de debates sobre demandas regionais, mas de pautas culturais e morais que conectam eleitores em escala nacional. “Ele age como um influencer digital que se tornou deputado federal”, resume Aggio, destacando o peso das mídias sociais na estratégia do parlamentar.
Entre números, discursos e análises, o retrato que emerge é o de um deputado com forte protagonismo nacional, que aposta na polarização política e no alcance digital como principais pilares de sua atuação — mesmo representando um estado historicamente marcado por demandas regionais complexas e específicas.


Gabriella Nobre 



