Itália investiga participação de cidadãos em “safáris humanos” durante a Guerra da Bósnia

O Ministério Público de Milão investiga cidadãos italianos que teriam pago até € 100 mil para atirar em civis bósnios durante o cerco de Sarajevo (1992-1996). O caso veio à tona após o documentário "Sarajevo Safari".

Itália investiga participação de cidadãos em “safáris humanos” durante a Guerra da Bósnia
Mulheres muçulmanas bósnias choram durante um comício no centro de Sarajevo pedindo que se unam aos seus antigos vizinhos no bairro sérvio de Grbavica, em 11 de dezembro de 1995 — Foto: AP/John Gaps III

O Ministério Público de Milão abriu uma investigação para apurar a possível participação de italianos em “safáris humanos” organizados durante o cerco de Sarajevo (1992–1996), um dos episódios mais violentos da Guerra da Bósnia.

De acordo com a denúncia, esses “turistas de guerra” teriam pago entre 80 mil e 100 mil euros (equivalente a R$ 490 mil a R$ 610 mil) para integrar as milícias sérvio-bósnias, recebendo armas e sendo posicionados nas colinas em torno da capital. Lá, teriam atirado contra civis e até crianças.

As excursões, segundo relatos, partiam da cidade italiana de Trieste às sextas-feiras e ocorriam entre 1993 e 1995. O caso veio à tona após uma investigação do jornalista Ezio Gavazzeni, que retomou o tema após o lançamento do documentário “Sarajevo Safari” (2023), do esloveno Miran Zupanič.

Em entrevista ao jornal La Repubblica, Gavazzeni afirmou que “empresários e pessoas de prestígio pagavam para matar civis indefesos e depois voltavam às suas vidas normais”. A promotoria de Milão já prepara o interrogatório de testemunhas, incluindo um ex-oficial da inteligência bósnia que interrogou prisioneiros de guerra.

Os suspeitos poderão responder por homicídio doloso com agravantes de crueldade e motivo torpe. Durante o cerco de Sarajevo, mais de 5 mil civis foram mortos  cerca de 1.500 crianças  e 15 mil pessoas ficaram feridas.

O cerco, que durou 1.425 dias, marcou profundamente a Guerra da Bósnia, travada após a dissolução da Iugoslávia. As tropas sérvio-bósnias mantiveram a capital sitiada, cortando o acesso a água, luz e alimentos. A ONU chegou a intervir, enviando capacetes azuis e realizando uma ponte aérea de suprimentos.

O conflito terminou com os Acordos de Dayton, assinados em novembro de 1995, encerrando uma guerra marcada por crimes de guerra, limpeza étnica e genocídio.