Estudo sobre polilaminina enfrenta críticas de revistas científicas e passa por revisão antes de ensaios clínicos

Entenda por que a pesquisa sobre polilaminina enfrenta resistência científica e quais os próximos passos autorizados pela Anvisa para o tratamento de lesão medular.

Estudo sobre polilaminina enfrenta críticas de revistas científicas e passa por revisão antes de ensaios clínicos
Tatiana Sampaio é autora do estudo sobre polilaminina — Foto: Faperj/Divulgação // G1 Globo

O estudo sobre polilaminina, substância que apresentou resultados promissores em pacientes com lesão medular, enfrenta resistência da comunidade científica e ainda não foi publicado em revistas especializadas. O pré-print do trabalho, divulgado em 2024, chamou atenção após relatos de melhora em pacientes, mas já acumulou recusas de periódicos como Nature Communications e Journal of Neurosurgery.

Segundo a pesquisadora responsável, Tatiana Sampaio, dois pontos principais levaram à rejeição do artigo: divergências sobre a taxa de recuperação espontânea de pacientes usada como referência e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em banco internacional de pesquisas, como o ClinicalTrials.gov.

“A nova versão do estudo vai corrigir erros identificados no manuscrito e trazer explicações adicionais sobre pontos questionados por editores e especialistas”, disse Tatiana em entrevista exclusiva ao g1. Entre as correções previstas estão ajustes em gráficos, detalhamento do exame de eletromiografia e esclarecimentos sobre o chamado choque medular, fase temporária que pode afetar a avaliação inicial da gravidade da lesão.

A pesquisadora também planeja implementar um método chamado grupo controle pareado, que permitirá comparar pacientes tratados com polilaminina com outros voluntários de grandes estudos internacionais que apresentem quadro semelhante, aumentando a confiabilidade dos resultados.

Até o momento, o estudo foi realizado em pequeno grupo de oito pessoas, após testes promissores em animais. A pesquisa recebeu aprovação da Anvisa para iniciar a fase 1 dos ensaios clínicos, etapa que verifica a segurança da substância em humanos. Caso essa fase seja bem-sucedida, os estudos avançarão para as fases 2 e 3, em que serão avaliadas eficácia, doses e efeitos adversos em um grupo maior de pacientes.

Especialistas alertam que, apesar da divulgação e do entusiasmo nas redes sociais, ainda é cedo para afirmar que a polilaminina é eficaz. “Os resultados são promissores, mas ainda iniciais. Cada paciente evolui de forma diferente, e o caso isolado de melhora não comprova que o medicamento funcione”, destaca a fisioterapeuta e especialista em reabilitação Franciele Romanini.

Além da eficácia, Tatiana reforça que não é possível descartar riscos, incluindo mortes registradas por complicações como pneumonia e sepse, que poderiam estar ligadas a efeitos imunossupressores da substância. A pesquisa clínica formal será conduzida com rigor, seguindo normas de segurança e ética, antes que qualquer registro sanitário seja solicitado para eventual comercialização.

Enquanto isso, a polilaminina segue sob observação científica rigorosa, aguardando que as próximas fases dos ensaios clínicos comprovem se a substância é realmente segura e eficaz para pacientes com lesão medular.