Um novo estudo científico está mudando a forma como a ciência entende o olfato humano e animal. Pesquisadores descobriram que os receptores responsáveis por identificar cheiros no nariz não estão distribuídos de forma aleatória, como se acreditava há décadas, mas seguem uma organização altamente estruturada.
A pesquisa, publicada nesta terça-feira (28/4) na revista científica Cell, revelou que esses sensores formam faixas bem definidas dentro da cavidade nasal de camundongos, criando um verdadeiro “mapa do olfato”.
O sistema olfativo funciona por meio de neurônios sensoriais especializados localizados no interior do nariz. Cada uma dessas células expressa apenas um tipo de receptor de odor — e, no caso dos camundongos, existem mais de mil tipos diferentes.
Para chegar às conclusões, os cientistas analisaram cerca de 5,5 milhões de neurônios de mais de 300 animais. Eles utilizaram técnicas avançadas como o sequenciamento de célula única, que permite estudar cada célula individualmente, e a transcriptômica espacial, que revela a posição exata dessas células no tecido nasal.
Com base nesses dados, a equipe conseguiu construir um mapa com mais de 1.100 tipos de receptores organizados em aproximadamente mil faixas. Segundo o neurobiólogo Sandeep Datta, da Harvard Medical School, um dos autores do estudo, o padrão encontrado foi inesperado. “Elas se sobrepõem, mas seguem uma organização bastante clara”, explicou.
O estudo também mostrou uma ligação direta entre essa organização no nariz e o funcionamento do cérebro. Os neurônios que compartilham o mesmo receptor enviam sinais para a mesma região do bulbo olfatório, estrutura responsável por interpretar os odores, indicando uma correspondência entre o “mapa nasal” e o “mapa cerebral”.
Outro ponto importante da pesquisa envolve o ácido retinoico, uma molécula que parece influenciar a disposição dos receptores. Alterações em seus níveis nos experimentos chegaram a modificar o posicionamento dessas células no nariz, sugerindo um papel ativo na formação desse sistema organizado.
Os cientistas agora investigam se o mesmo padrão existe em humanos. Embora o sistema olfativo humano seja semelhante ao dos camundongos, ele possui menos tipos de receptores, o que levanta dúvidas sobre até que ponto essa organização se mantém.
Compreender essa estrutura pode ajudar a explicar não apenas como percebemos cheiros, mas também por que algumas pessoas perdem o olfato — uma condição que pode impactar diretamente a qualidade de vida e até a saúde mental.