Criadas originalmente para o tratamento da diabetes tipo 2 e da obesidade, as chamadas “canetas emagrecedoras” se tornaram tendência nas redes sociais e acendem um alerta entre especialistas às vésperas do Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março. A data foi instituída para conscientizar sobre os riscos do excesso de peso e a importância de tratamentos baseados em evidências científicas.
Conhecidas tecnicamente como agonistas de GLP-1, essas medicações passaram a ser utilizadas por pessoas sem diagnóstico de doença metabólica, muitas vezes com finalidade exclusivamente estética. Pesquisa recente da USP aponta crescimento expressivo desse uso fora da indicação clínica.
Segundo o endocrinologista e metabologista Rafael Fantin, especialista em medicina do exercício e esporte, o problema começa quando o medicamento é buscado apenas para perder “dois ou três quilos”, sem avaliação médica adequada.
— Quando não há indicação formal, a aquisição tende a ser mais duvidosa, com risco de contaminação, falsificação e até de a pessoa não estar usando o que consta na embalagem. Mesmo os medicamentos originais, que são relativamente seguros quando prescritos corretamente, exigem acompanhamento — afirma.
Efeitos colaterais e riscos
Na prática, as canetas imitam hormônios responsáveis pelo controle do apetite e da saciedade. Em pacientes com obesidade, podem ser ferramentas importantes dentro de um plano terapêutico mais amplo. No entanto, o uso indiscriminado pode provocar náuseas, vômitos, deficiências nutricionais, perda de massa muscular e até transtornos alimentares, como anorexia e bulimia.
Fantin alerta ainda para o risco de “efeito rebote”, quando há recuperação do peso após a interrupção do medicamento.
— A medicação estimula o emagrecimento, mas não corrige sozinha os fatores bioquímicos, fisiológicos e comportamentais que levaram ao ganho de peso. Se não houver mudança real de estilo de vida, o corpo tende a defender o peso anterior — explica.
O especialista ressalta que o organismo possui mecanismos naturais de proteção contra a perda rápida de peso. Quando o emagrecimento ocorre de forma acelerada, pode haver maior perda de massa muscular, reduzindo o gasto energético e facilitando o reganho de gordura posteriormente.
Contraindicações
O uso dessas medicações é contraindicado para pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide e neoplasia endócrina múltipla, além de não ser indicado durante gravidez e lactação. Pacientes com histórico de pancreatite também exigem avaliação criteriosa.
Outro ponto de preocupação é o mercado paralelo. Segundo o médico, há aumento da circulação de produtos falsificados ou de procedência desconhecida.
— Pode haver contaminação, concentração errada ou até substância diferente da descrita. Isso coloca o paciente em risco e dificulta o manejo de possíveis efeitos adversos — alerta.
Influência das redes sociais
Fantin avalia que a popularização das “canetas” nas redes sociais reforça uma visão simplificada e estética do emagrecimento.
— As redes vendem o resultado e escondem o processo. Mostram o “antes e depois” como se fosse atalho. Isso faz com que uma medicação para doença crônica seja tratada como cosmético — diz.
Para o especialista, o Dia Mundial da Obesidade deve servir como momento de reflexão sobre soluções milagrosas.
— A caneta pode ser uma ferramenta, mas não pode virar muleta. O tratamento real do excesso de peso envolve diagnóstico adequado, correções metabólicas e mudanças sustentáveis de comportamento. Tudo que promete muito costuma cumprir pouco — conclui.
Especialistas reforçam que o combate à obesidade exige abordagem multidisciplinar, acompanhamento médico e estratégias de longo prazo, evitando riscos associados ao uso indiscriminado de medicamentos.