Cinema gratuito e de rua revitaliza a Lagoinha e reforça o espaço do audiovisual nacional em Belo Horizonte

Conheça o Cine Graciano, nova sala de cinema gratuita no tradicional Bairro Lagoinha, em BH. Veja a programação de férias com filmes nacionais e bate-papo com diretores.

Cinema gratuito e de rua revitaliza a Lagoinha e reforça o espaço do audiovisual nacional em Belo Horizonte
O projeto, idealizado pelo coletivo Filmes de Rua, tem capacidade para 48 pessoas e funciona como um respiro cultural em uma região historicamente marcada por contrastes sociais e boemia. crédito: Tulio Santos/EM/D.A. Press

Em meio ao domínio das salas de cinema em shoppings centers, Belo Horizonte ganha um reforço simbólico e cultural que aponta para outro caminho. Inaugurado em novembro de 2025, o Cine Graciano surge como uma das 35 novas salas abertas no Brasil no último ano — e com um diferencial raro: entrada gratuita, foco em filmes nacionais e independentes e localização no tradicional Bairro Lagoinha, na região central da capital.

Com capacidade para 48 pessoas, ar-condicionado e sessões às terças e quintas-feiras, o cinema funciona como um respiro para cinéfilos cansados do circuito comercial. Até julho de 2026, a proposta é exibir cerca de 90 longas-metragens, valorizando produções brasileiras e criando um público fiel ao cinema de rua.

O projeto é uma iniciativa do coletivo Filmes de Rua e foi viabilizado por meio de uma emenda parlamentar de R$ 30 mil da deputada estadual Bella Gonçalves (PSOL). O nome do espaço homenageia o ator Hugo Graciano, integrante do coletivo, que viveu em situação de rua e morreu em 2024, aos 26 anos. O cinema funciona em um prédio centenário, datado de 1920, tombado como patrimônio cultural do município em 2020.

Neste mês de janeiro, a programação foi pensada especialmente para o período de férias. Um dos destaques é o filme “O Último Episódio”, da premiada produtora mineira Filmes de Plástico. A sessão acontece no dia 22, às 19h, e contará com a presença do diretor Maurílio Martins, que participa de um bate-papo com o público após a exibição. O longa acompanha um adolescente de 13 anos que tenta conquistar uma colega da escola ao afirmar que possui o episódio final do clássico desenho Caverna do Dragão, sucesso das décadas de 1980 e 1990.

Para o público infantil, o Cine Graciano promove, nos dias 22 e 29 de janeiro, sessões de curtas da Mostra Udigrudi Mundial de Animação (MUMIA), sempre às 15h. Já no dia 29, o documentário “Neirud”, dirigido por Fernanda Fay, apresenta uma investigação íntima da diretora sobre a história de uma mulher criada por sua família circense, envolta em mistério.

A escolha da Lagoinha como sede do cinema não foi aleatória. Região marcada por vulnerabilidade social e intenso fluxo de pessoas em situação de rua, o bairro carrega uma forte tradição cultural. Foi ali que surgiram a primeira escola de samba de Belo Horizonte, a Pedreira Unida, e o primeiro bloco carnavalesco da cidade, o Leão da Lagoinha. A boemia local também deu nome ao famoso “copo lagoinha”, símbolo dos bares da capital.

Para o pesquisador João Perdigão, integrante do Filmes de Rua, a localização dialoga com a proposta do coletivo. “Apesar de estar perto do centro, a Lagoinha tem uma dinâmica meio periférica. Essa contradição é parte da identidade do projeto”, explica. O coletivo nasceu em 2015, a partir do trabalho da diretora Joanna Ladeira com jovens em situação de rua no Viaduto Santa Tereza, experiência que resultou no filme Filmes de Rua (2017).

A organizadora da mostra e integrante do coletivo, Ed Marte, reforça o impacto social do espaço. “É um cinema de rua aberto e gratuito. Para quem passa por aqui todos os dias, é importante ter um lugar para assistir a um filme, para se reconhecer na tela”, afirma. A curadoria prioriza obras nacionais, especialmente produções de Belo Horizonte e de outros estados, e também aceita sugestões do público.

O surgimento do Cine Graciano ocorre em um momento paradoxal para o setor. Embora o Brasil tenha alcançado o recorde de 3.554 salas de cinema em 2025, a maioria está concentrada em shoppings. Além disso, o público de filmes nacionais caiu 11,6% no último ano, segundo dados da plataforma Filme B, enquanto os dez títulos mais assistidos foram todos estrangeiros.

Em Belo Horizonte, ainda resistem algumas salas de rua, como o Cine Belas Artes, Cine Humberto Mauro, Cine Santa Tereza e Cine Cardume. Mas o cenário já foi muito mais vibrante. Nas décadas de 1940 e 1950, dezenas de cinemas funcionavam na região central e nos bairros. O fechamento do Cine Metrópole, em 1983 — demolido para dar lugar a um banco — simbolizou o declínio desse modelo e deixou uma marca profunda na memória cultural da cidade.

Nesse contexto, o Cine Graciano representa mais do que uma nova sala: é um gesto de resistência cultural, inclusão social e valorização do cinema brasileiro. Em um bairro historicamente marginalizado, o projeto devolve à cidade a experiência coletiva de assistir a filmes na rua — gratuita, acessível e cheia de significado.