Às vésperas da saída da Fazenda, Haddad reage a críticas do mercado e defende legado fiscal e reforma tributária

Fernando Haddad rebate críticas da Faria Lima, celebra redução de 70% no déficit primário e aponta a Reforma Tributária como seu grande legado na Fazenda. Confira os detalhes.

Às vésperas da saída da Fazenda, Haddad reage a críticas do mercado e defende legado fiscal e reforma tributária
Segundo ele, o novo sistema operacional (comparado ao sucesso do Pix) colocará o Brasil entre os melhores modelos de tributação sobre o consumo no mundo, superando décadas de ineficiência. Mídia/Reprodução: Money Times

Em tom de balanço e defesa de sua gestão, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), voltou a rebater críticas do mercado financeiro e de empresários da Faria Lima ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente no que diz respeito à condução da política fiscal. As declarações foram feitas nesta terça-feira (10/2), durante uma conferência promovida pelo BTG Pactual, em São Paulo, às vésperas de sua despedida do comando da equipe econômica.

Segundo Haddad, o debate fiscal tem sido dominado por desinformação e análises superficiais. “É o tema mais discutido, mas, em geral, o nível da discussão é de baixa qualidade técnica”, afirmou, ao reiterar que o governo Lula mantém o compromisso com a responsabilidade fiscal e o equilíbrio das contas públicas.

O ministro comparou o cenário atual com o herdado do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). De acordo com ele, o orçamento deixado para 2023 previa um déficit de R$ 63 bilhões, sem considerar despesas como precatórios e o reajuste do Bolsa Família aprovado em ano eleitoral. “Somando tudo, havia um déficit contratado de 1,6% do PIB”, disse.

Haddad destacou que, apesar das dificuldades políticas, o governo conseguiu reduzir significativamente o rombo fiscal. “Qual foi o déficit do ano passado? 0,48% do PIB. Você reduziu em 70% o déficit primário”, afirmou. Ainda assim, reconheceu que gostaria de ter avançado mais. “Eu entendo o clamor da Faria Lima, mas eu sou um só. É preciso negociar com o Congresso”, completou.

Alvo frequente de críticas de economistas e investidores, o arcabouço fiscal também foi defendido pelo ministro. Haddad afirmou que não abriria mão do modelo adotado pelo atual governo. “Ele combina o melhor da Lei de Responsabilidade Fiscal, com meta de resultado primário, e uma meta de gastos. Não me arrependo”, declarou.

Ao ser questionado sobre o principal legado de sua gestão, Haddad foi direto: a reforma tributária. Após mais de três décadas de discussões, a proposta foi aprovada pelo Congresso Nacional e, segundo o ministro, promoverá uma transformação profunda no sistema de impostos sobre o consumo.

“Hoje temos um dos piores sistemas tributários do mundo, segundo o Banco Mundial. Com a reforma e um sistema operacional muito maior que o Pix, vamos saltar para um dos melhores”, afirmou. Para Haddad, a mudança histórica deve tornar o Brasil ainda mais atrativo para investimentos estrangeiros.

O ministro também admitiu preocupação com o impacto fiscal dos programas sociais e sinalizou abertura para debater novos modelos. Entre as ideias citadas está a Renda Básica de Cidadania, defendida historicamente pelo ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP).

“Talvez o Brasil esteja maduro para uma solução mais criativa. Essa discussão está sendo feita entre os técnicos do Estado brasileiro”, explicou, ressaltando que qualquer proposta precisará ser validada politicamente.

Questionado sobre quando deixará oficialmente o Ministério da Fazenda, Haddad evitou cravar uma data. Disse apenas que ainda cumpre demandas solicitadas pelo presidente Lula e que está finalizando projetos em áreas como segurança pública, em parceria com o Ministério da Justiça.

Sobre a sucessão na pasta, Haddad preferiu não antecipar decisões que considera prerrogativa exclusiva do presidente, mas elogiou nomes como o secretário-executivo Dario Durigan e o secretário do Tesouro, Rogério Ceron.

Em tom descontraído, brincou com o momento de reconhecimento público. “Estou gostando dessa situação em que estou hoje. Está todo mundo me elogiando pela primeira vez”, disse, arrancando risos da plateia.

Embora seu nome seja citado como possível candidato ao governo de São Paulo ou ao Senado, Haddad reafirmou que não pretende disputar cargos nas próximas eleições. Segundo ele, a prioridade é contribuir com o programa de governo de Lula para a reeleição.

Veterano em disputas eleitorais — com derrotas em 2016, 2018 e 2022 —, Haddad encerra sua passagem pela Fazenda defendendo o legado econômico do governo e sinalizando que, mesmo fora do cargo, continuará influente nos rumos políticos e programáticos do PT.