A calmaria do campo esconde tempestades humanas na nova temporada de “Os outros”
A intolerância chega ao campo. Confira a análise da 3ª temporada de "Os Outros", gravada na Serra da Mantiqueira, com Adriana Esteves e Lázaro Ramos no Globoplay.
Deixar o barulho da cidade para trás e buscar recomeço em meio ao silêncio da natureza parece, à primeira vista, um convite à paz. Mas a terceira temporada de Os Outros prova justamente o contrário: longe do caos urbano, a intolerância continua a florescer — agora em um cenário ainda mais imprevisível.
Protagonizada por Adriana Esteves e Lázaro Ramos, a trama acompanha personagens movidos por um desejo comum: recomeçar. No entanto, o que encontram não é redenção, mas um território marcado por conflitos, ressentimentos e ameaças constantes. A natureza exuberante dá lugar a um verdadeiro campo minado emocional, onde qualquer faísca pode desencadear confrontos explosivos.
Segundo o roteirista Lucas Paraizo, a mudança de cenário não suaviza os embates — apenas os transforma. “A intolerância continua marcando as relações”, afirma. Já a diretora Luisa Lima destaca que a ida para o ambiente rural amplia não só o espaço físico, mas também a tensão dramática, explorando novas possibilidades visuais e narrativas.
A temporada marca o retorno de Cibele, personagem de Adriana Esteves, agora sob nova identidade, em fuga após eventos traumáticos envolvendo o filho. Sua jornada cruza, em uma estrada na Serra da Mantiqueira, com a de Roberto, vivido por Lázaro Ramos — um homem que, após décadas de carreira, vê sua vida desmoronar e decide começar do zero no campo. Dois destinos em busca de redenção que se entrelaçam desde o primeiro episódio.
O elenco afiado é um dos pontos altos da produção. Além dos protagonistas, nomes como Carol Duarte, Bruno Garcia e Mariana Lima reforçam a densidade dramática, enquanto a veterana Docy Moreira se destaca em cenas marcantes, como o conflito envolvendo um inesperado atropelamento de um ganso — episódio que sintetiza o tom insólito e tenso da narrativa.
Visualmente, a série também se reinventa. Gravada em locações naturais no interior, a produção aposta em enquadramentos sofisticados e evita soluções óbvias. A diretora assume influências de cineastas como Andrei Tarkovski e Terrence Malick, trazendo um olhar mais contemplativo — ainda que a contemplação rapidamente dê lugar ao desconforto.
A terceira temporada reforça uma tradição narrativa que transforma o campo em palco de violência e tensão, dialogando com obras como Sob o Domínio do Medo e Amargo Pesadelo, além do recente As Bestas. No Brasil, a série também ecoa temas de Onde Nascem os Fortes, ao explorar conflitos entre moradores locais e forasteiros.
Disponível no Globoplay a partir de 9 de abril, a temporada final da chamada “trilogia da intolerância” chega com quatro episódios iniciais, seguidos por novos blocos nos dias 16 e 23. Mais do que encerrar um ciclo, a série consolida seu retrato ácido da sociedade brasileira, abordando medos, preconceitos e rupturas em diferentes contextos — do condomínio urbano ao isolamento rural.
Sem garantir um desfecho definitivo para a história, Lucas Paraizo resume o impacto da obra: uma reflexão incômoda, porém necessária, sobre a convivência humana. Afinal, mudar de cenário não basta — quando o conflito está nas pessoas, ele sempre encontra um novo lugar para florescer.
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